quinta-feira, 12 de março de 2009

Experimento Improvisacional “Canta Corpo”. Por: Leônidas Portella


O filme “La Môme ou Piaf - Um Hino ao Amor” foi lançado pela Europa Filmes em 2008, uma biografia de Edith Piaf, onde a atriz Marion Cotillard foi vencedora do Oscar de melhor atriz, graças à sua excelente atuação e a fiel caracterização dada à personagem. Para quem quer pesquisar sobre Edith Piaf, o filme é sem dúvidas uma grande referência, um verdadeiro pontapé inicial. Outro registro videográfico importante dentro do processo de pesquisa do espetáculo “Piaf: Accord á Corps”, destaca-se uma seleção de vídeos e documentário sobre a cantora extraído do site YouTube. A partir da observação destas imagens as intérpretes pesquisam gestos executados organicamente por Edith Piaf em alguns momentos de apresentações. Cada intérprete propõe inicialmente uma seqüência de 10 gestos, em seguida, elaboram uma seqüência coreográfica onde os gestos de todas as intérpretes se mesclam harmoniosamente.

É um experimento que apresenta certo grau de dificuldade, primeiro na questão da memorização de todos esses gestos, segundo na elaboração de seqüência harmônica e distribuição no espaço, terceiro na integridade para elaboração e quarto na observação e fixação das intensidades e intenções dos movimentos e quinto na elaboração de tudo sem a presença do diretor, ou seja, na demonstração da autonomia dos intérpretes para a realização da proposta de trabalho.

O músico Francisco Jara, está propondo através de seu método, uma sensibilização para o canto. As intérpretes recebem aulas com freqüência, é instigante observar o crescimento de seus potencias artísticos a cada momento, além de atuar e dançar estão buscando também cantar. Francisco já nos deixou bem claro que para cantar é necessário um longo processo e que sua intensão conosco não é formar cantores, garantiu que em poucos meses será possível um desenvolvimento vocal que proporcione segurança em cena, para isso, a disciplina dos interpretes deve ser necessariamente constante.

Por falar em disciplina, vale citar que o elenco de “Piaf: Accord á Corps” perdeu mais uma de suas integrantes. Agora estão participando do processo: Geraldine Gauthier, Marina Corrêa, Rosa Ewerton, Neusa de Paula e o diretor Leônidas Portella. O diretor pretende estar em cena neste espetáculo, não para assumir o lugar de um integrante que desistiu do espetáculo (algo que aconteceu em “As Cores de Frida”), mas por sentir segurança e confiar no atual elenco. “Piaf: Accord à Corps” é o primeiro espetáculo do Núcleo Atmosfera composto apenas de artistas profissionais. O artista profissional além de ser maduro e ter senso crítico apurado, têm autonomia e humildade, percebe que num trabalho coletivo e criativo é possível ensinar e aprender. É apenas com artistas capazes de ser profissionais (no sentido mais amplo possível, não só de nomenclatura, mas também de ações condizentes aos conteúdos humanos) que o Núcleo Atmosfera pretende trabalhar futuramente, partindo inicialmente da atual pesquisa.

“Chocado”, gosto de usar essa palavra agora, em “As Cores de Frida”, esta palavra foi dita após a leitura do “Relatório de Ensaio sem o Diretor”, escrito por Neusa de Paula (integrante do atual “Piaf: Accord á Corps”). O elenco estava chocado com a possível verdade exposta no texto estou assim diante da apreciação final do “Experimento Improvisacional: Canta Corpo”, no sentido mais eletrizante e positivo possível. A apresentação do resultado foi algo que me contagiou facilmente, meu papel era filmar e no momento inicial não conseguia fazer isso, senti uma vontade imensa de apreciar tudo a “olhos nus”, nem sei o que senti. Em seguida repetiram tudo para que eu pudesse filmar, e eu ainda estava em estado de choque, consegui filmar e já assisti centenas de vezes para acreditar no acontecimento histórico... Na minha jovem vida de diretor sonhava enxergar um dia a autonomia do elenco para a criação. Parece que esse dia chegou hoje. Fiquei emocionado com essa conquista. Ensaiaram sem mim. Evoé!

Sei que existiram outros aspectos que dificultaram o andamento dessa criação, mas foram superados e fortalecidos. Garanto que os próximos Experimentos serão bem mais fortes, a intensidade é algo a ser conquistado com um tempo de verdade. Vejo verdade! Obrigado pelo momento ao elenco e principalmente à Francisco Jara, que nos mostrou que o sentimento e a emoção do ser humano também podem estar em sua voz assim como na essência de sua alma.



terça-feira, 10 de março de 2009

No Encontro da Rainha dos Contos - Por: Leônidas Portella



Aconteceu algo inusitado comigo no ano passado, lembro como se fosse hoje. Algo muito gostoso de lembrar. Algo que considero “um momento emocionante”.

O Maranhão inteiro homenageava o centenário de Arthur Azevedo em 2008, no ano em que eu ainda trabalhava como recepcionista no teatro que carrega esse mesmo nome. Muitos jovens das redes de ensino públicos e privados buscavam no teatro conhecer um pouco da história do escritor, repeti inúmeras vezes as mesmas falas trocando as vezes umas e outras palavras. Nesse mesmo ano, o Governo do Estado promoveu a II Feira do Livro de São Luís e a temática principal abordada na programação cultural continuava sendo Arthur Azevedo. Eu estava num momento saturado de tanto repetir esse nome. Voltando ao assunto... Não quero falar dele e sim dela, mas preciso citá-lo novamente...

Foi no auditório Arthur Azevedo (criado exclusivamente para a II Feira do Livro) que conheci Marina Colasanti, a rainha dos contos que encantam.

Marina Colasanti lotou esse auditório, mais de 300 pessoas se apertavam no mesmo espaço para vê-la, fazer perguntas, criticar... Eu continuava a observar a grandiosidade feminina existente naquele corpo, me emocionando com cada palavra que ela dizia, os gestos de suas mãos eram vivos e transmitiam conforto, a sensibilidade e humildade que ela usava para falar de sua história de vida para os leitores era surpreendente. Marina regou arranjos florais que estavam sem vida sobre a mesa do auditório, comparando-os à vida humana, as pequenas coisas tornavam-se imensas com o toque dela, ela vive com a mesma simplicidade que ela escreve nos contos.

Na infância, conheci “A Moça Tecelã” nos livros da escola e me apaixonei por ela sem dar a mínima importância para o nome da autora, naquele período eu só queria correr e imaginar as coisas que não existiam, cresci com os escritos de Marina. Hoje percebo que eles tocam não apenas crianças, mas também o ser humano em sua totalidade existencial. Me senti uma criança quando encontrei Marina naquela noite e também pensei em outras cem crianças.

Por trabalhar com dança educativa, sempre levei contos de Marina para que as crianças pudessem imaginar que o corpo também é capaz de mergulhar num mundo repleto de reis, rainhas, unicórnios e camponesas, conseguindo realizar experimentações em que a relação entre corpo e poesia estava em evidência. Sendo bem sincero, fui ao auditório naquela noite para falar com Marina sobre o meu trabalho com as crianças.

Antes de terminar de descrever esse momento gostaria que imaginassem:

-Imagine o conto, ou estória que você mais amou na infância

- Imagine tudo que existe nele, os reis, os dragões...

-Imagine sua mãe lendo essas estórias antes de você dormir

- Imaginou?

- Agora some toda essa imaginação e eleve “à máxima potência”, foi exatamente assim que me senti ao presenciar Marina Colasanti contando um de seus contos.

No final da palestra as pessoas aplaudiam a rainha com muita verdade, enquanto eu me aproximava cada vez mais para alcançar o olhar da escritora fantástica, e alcancei. Vermelho e em tom baixo disse como um menino tímido, falei para Marina Colasanti que um dia dançaria seus contos. Ela apenas sorriu sem condições de parar e conversar comigo. Aquele sorriso me tocou de tal forma que comprei alguns livros dela no dia seguinte pela internet e mais uma vez lembrei da criança que continua viva dentro de mim.

Agora consigo acreditar no destino, atualmente iniciei um novo processo criativo, agora sou professor de dança no Teatro Arthur Azevedo e isso me deixa muito feliz. Os contos de Marina Colasanti me inspiram para a criação do espetáculo com os alunos. Entre todas as qualidades dos contos de Marina, o feminismo constate como plano de fundo é algo instigante, a mulher continua sendo uma eterna vítima social, mesmo com as constantes transformações do homem e do mundo.

Agora sou um camponês saltando sobre um unicórnio para alcançar a estrela que brilha no topo da torre do castelo.

Dançar Marina Colasanti será como viver o encanto do conto.

Um pouco mais sobre Marina? Assista o vídeo

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Moça Tecelã - Marina Colasanti


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo se sentava ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois, lãs mais vivas; quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que, em pontos longos, rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas, se, durante muitos dias, o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome, tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor-de-leite que entremeava o tapete. E, à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas, tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha e, pela primeira vez, pensou como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E, aos poucos, seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma e foi entrando na sua vida.

Naquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, por algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária, disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor-de-tijolo, fios verdes para os batentes e pressa para a casa acontecer.

Mas, pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Por que ter casa, se podemos ter palácio?, perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates de prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça, tecendo tetos e portas, e pátios, e escadas, e salas, e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto, sem parar, batiam os pentes, acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal, o palácio ficou pronto. E, entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete, disse.

E, antes de trancar a porta a chave, advertiu:

— Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso, tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos; os cofres, de moedas; as salas, de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E, tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E, pela primeira vez, pensou como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E, descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois, desteceu os criados e o palácio. E todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz que a manhã repetiu na linha do horizonte.


COLASANTI, Marina. Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento. 6. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982.

Marina Colasanti - Dona dos Contos que Encantam


Marina Colasanti (Asmarra, 26 de setembro de 1937)é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritréia. Ainda criança sua família voltou para a Itália de onde emigram para o Brasil com a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

No Brasil estudou Belas Artes e trabalhou como jornalista, tendo ainda traduzido importantes textos da lietratura italiana. Como escritora, publicou 33 livros, entre contos, poesia, prosa literatura infantir e infanto-juvenil.

Uma idéia toda azul é um livro seu de contos que ganhou o prêmio O Melhor para o Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Já fez livros em versões espanholas que não constam na lista de obras abaixo.

Obras

  • Minha Ilha Maravilha (2007) - Ed. Ática
  • Acontece na cidade (2005) - Ed. Ática
  • Fino sangue (2005)
  • O homem que não parava de crescer (2005)
  • 23 histórias de um viajante (2005)
  • Uma estrada junto ao rio (2005)
  • A morada do ser (1978, 2004)
  • Fragatas para terras distantes (2004)
  • A moça tecelã (2004)
  • Aventuras de pinóquio – histórias de uma marionete (2002)
  • A casa das palavras (2002) - Ed. Ática
  • Penélope manda lembranças (2001) - Ed. Ática
  • A amizade abana o rabo (2001)
  • Esse amor de todos nós (2000)
  • Ana Z., aonde vai você? (1999) - Ed. Ática
  • Gargantas abertas (1998)
  • O leopardo é um animal delicado (1998)
  • Histórias de amor (série “Para gostar de ler” vol. 22) (1997) - Ed. Ática
  • Longe como o meu querer (1997) - Ed. Ática
  • Eu sei mas não devia (1995)
  • Um amor sem palavras (1995)
  • Rota de colisão (1993)
  • De mulheres, sobre tudo (1993)
  • Entre a espada e a rosa (1992)
  • Cada bicho seu capricho (1992)
  • Intimidade pública (1990)
  • A mão na massa (1990)
  • Será que tem asas? (1989)
  • Ofélia, a ovelha (1989)
  • O menino que achou uma estrela (1988)
  • Aqui entre nós (1988)
  • Um amigo para sempre (1988)
  • Contos de amor rasgado (1986)
  • O verde brilha no poço (1986)
  • E por falar em amor (1985)
  • Lobo e o carneiro no sonho da menina (1985)
  • A menina arco iris (1984)
  • Doze reis e a moça no labirinto do vento (1978)
  • Uma idéia toda azul (1978).