sábado, 25 de julho de 2009

O Labirinto dos Poros - Por: Leônidas Portella

A cidade de São Luís (intitulada atualmente como São Luís Capital Brasileira da Cultura 2009) fora reconhecida pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura como dona de um rico acervo arquitetônico colonial civil português conservado. Em 03 de dezembro de 1997 o Comitê Mundial de Patrimônio, reunido em Nápoles (Itália), aprovou por unanimidade a inclusão de São Luís na lista do Patrimônio Mundial. A conservação desse patrimônio é um fator contraditório e preocupante no contexto atual. Ao passo que celebramos os 12 anos dessa concessão, dezenas de casarões do centro histórico da capital maranhense passam por um triste – e aparentemente irreversível – processo de degradação. Isto ocorre devido a inúmeros fatores que dificultam a manutenção desses casarões. Um deles é o abandono por parte dos proprietários, gerando perigo à população, além causar danos para o patrimônio histórico. Essa degradação também inquieta e repercurte na arte pois necessitamos de espaços como esses para exercer nossas atividades. Acreditamos na execução de propostas artísticas para alcançar reflexões na comunidade assim como nas autoridades competentes do Estado.
O espetáculo “Labirinto dos Poros” é uma pesquisa de Dança-Teatro que denuncia a expressividade corporal dos intérpretes a partir da dimensão arquitetônica dos casarões. “Nossos corpos são compostos de músculos, ossos, órgãos assim como os casarões são compostos de janelas, portas, mirantes. Ambos necessitam de constantes cuidados".
Relacionamos a pesquisa corporal dos intérpretes ao corpo dos casarões ocupando seus espaços com solos inspirados em temáticas diversas como escritos de Caio Fernando Abreu, Cecília Meireles, Florbela Espanca, Hilda Hilst, Heiner Müller, Clarice Lisp
ector, Roland Barthes, telas de Van Gogh, personagens de Moliére além da exploração de imagens e objetos.

Apreciem!
Ficha Técnica Elenco: Denise dos Anjos, Neusa de Paula, Marina Corrêa, Geraldine Gauthier, Valda Lino, Rosa Ewerton, Tatiane Soares, Timóteo Cortes. Produção: Thyago Cordeiro, Thayara Pinheiro e Alex Liberato, Neusa de Paula Percussão e Iluminação: Milena Silva. Figurinos: Diva Dias. Direção: Leônidas Portella.

Local: Primeira Temporada todas as segundas de agosto na Tapete Criações Cênicas - Reviver.
Lotação:
30 pessoas. Ingressos: 5 reais.
Informações: 3256-2111 / 8807-3848 / 8896-6275



quinta-feira, 23 de julho de 2009

Entre a Espada e a Rosa - Conto de Marina Colasanti


Qual é a hora de casar, senão aquela em que o coração diz "quero"? A hora que o pai escolhe. Isso descobriu a Princesa na tarde em que o Rei mandou chamá-la e, sem rodeios, lhe disse que, tendo decidido fazer aliança com o povo das fronteiras do Norte, prometera dá-la em casamento ao seu chefe. Se era velho e feio, que importância tinha frente aos soldados que traria para o reino, às ovelhas que poria nos pastos e às moedas que despejaria nos cofres? Estivesse pronta, pois breve o noivo viria buscá-la.
De volta ao quarto, a Princesa chorou mais lágrimas do que acreditava ter para chorar. Embotada na cama, aos soluços, implorou ao seu corpo, a sua mente, que lhe fizesse achar uma solução para escapar da decisão do pai. Afinal, esgotada, adormeceu.
E na noite sua mente ordenou, e no escuro seu corpo ficou. E ao acordar de manhã, os olhos ainda ardendo de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Com quanto medo correu ao espelho! Com quanto espanto viu cachos ruivos rodeando-lhe o queixo! Não podia acreditar, mas era verdade. Em seu rosto, uma barba havia crescido.
Passou os dedos lentamente entre os fios sedosos. E já estendia a mão procurando a tesoura, quando afinal compreendeu. Aquela era a sua resposta. Podia vir o noivo buscá-la. Podia vir com seus soldados, suas ovelhas e suas moedas. Mas, quando a visse, não mais a quereria. Nem ele nem qualquer outro escolhido pelo Rei.
Salva a filha, perdia-se porém a aliança do pai. Que tomado de horror e fúria diante da jovem barbada, e alegando a vergonha que cairia sobre seu reino diante de tal estranheza, ordenou-lhe abandonar o palácio imediatamente.
A Princesa fez uma trouxa pequena com suas jóias, escolheu um vestido de veludo cor de sangue. E, sem despedidas, atravessou a ponte levadiça, passando para o outro lado do fosso. Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.
Na primeira aldeia aonde chegou, depois de muito caminhar, ofereceu-se de casa em casa para fazer serviços de mulher. Porém ninguém quis aceitá-la porque, com aquela barba, parecia-lhes evidente que fosse homem.
Na segunda aldeia, esperando ter mais sorte, ofereceu-se para fazer serviços de homem. E novamente ninguém quis aceitá-la porque, com aquele corpo, tinham certeza de que era mulher.
Cansada mas ainda esperançosa, ao ver de longe as casas da terceira aldeia, a Princesa pediu uma faca emprestada a um pastor, e raspou a barba. Porém, antes mesmo de chegar, a barba havia crescido outra vez, mais cacheada, brilhante e rubra do que antes.
Então, sem mais nada pedir, a Princesa vendeu suas jóias para um armeiro, em troca de uma couraça, uma espada e um elmo. E, tirando do dedo o anel que havia sido de sua mãe, vendeu-o para um mercador, em troca de um cavalo.
Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não seria mais homem, nem mulher. Seria guerreiro.
E guerreiro valente tornou-se, à medida que servia aos Senhores dos castelos e aprendia a manejar as armas. Em breve, não havia quem a superasse nos torneios, nem a vencesse nas batalhas. A fama da sua coragem espalhava-se por toda parte e a precedia. Já ninguém recusava seus serviços. A couraça falava mais que o nome.
Pouco se demorava em cada lugar. Lutava cumprindo seu trato e seu dever, batia-se com lealdade pelo Senhor. Porém suas vitórias atraíam os olhares da corte, e cedo os murmúrios começavam a percorrer os corredores. Quem era aquele cavaleiro, ousado e gentil, que nunca tirava os trajes de batalha? Por que não participava das festas, nem cantava para as damas? Quando as perguntas se faziam em voz alta, ela sabia que era chegada a hora de partir. E ao amanhecer montava seu cavalo, deixava o castelo, sem romper o mistério com que havia chegado.
Somente sozinha, cavalgando no campo, ousava levantar a viseira para que o vento lhe refrescasse o rosto acariciando os cachos rubros. Mas tornava a baixá-la, tão logo via tremular na distância as bandeiras de algum torreão.
Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava.
Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era ela que chamava para os exercícios na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro. Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvo a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcoressem juntas.
Companheiro nas lutas e nas caçadas, inquietava-se porém o Rei vendo que seu amigo mais fiel jamais tirava o elmo. E mais ainda inquietava-se, ao sentir crescer dentro de si um sentimento novo, diferente de todos, devoção mais funda por aquele amigo do que um homem sente por um homem. Pois não podia saber que à noite, trancado o quarto, a princesa encostava seu escudo na parede, vestia o vestido de veludo vermelho, soltava os cabelos, e diante do seu reflexo no metal polido, suspirava longamente pensando nele.
Muitos dias se passaram em que, tentando fugir do que sentia, o Rei evitava vê-la. E outros tantos em que, percebendo que isso não a afastava da sua lembrança, mandava chamá-la, para arrepender-se em seguida e pedia-lhe que se fosse.
Por fim, como nada disso acalmasse seu tormento, ordenou que viesse ter com ele. E, em voz áspera, lhe disse que há muito tempo tolerava ter a seu lado um cavaleiro de rosto sempre encoberto. Mas que não podia mais confiar em alguém que se escondia atrás do ferro. Tirasse o elmo, mostrasse o rosto. Ou teria cinco dias para deixar o castelo.
Sem resposta, ou gesto, a Princesa deixou o salão, refugiando-se no seu quarto. Nunca o Rei poderia amá-la, com sua barba ruiva. Nem mais a quereria como guerreiro, com seu corpo de mulher. Chorou todas as lágrimas que ainda tinha para chorar. Dobrada sobre si mesma, aos soluços, implorou ao seu corpo que lhe desse uma solução. Afinal, esgotada, adormeceu.
E na noite seu mente ordenou, e no escuro seu corpo brotou. E ao acordar de manhã, com os olhos inchados de tanto chorar, a Princesa percebeu que algo estranho se passava. Não ousou levar as mãos ao rosto. Com medo, quanto medo! Aproximou-se do escudo polido, procurou seu reflexo. E com espanto, quanto espanto! Viu que, sim, a barba havia desaparecido. Mas em seu lugar, rubras como os cachos, rosas lhe rodeavam o queixo.
Naquele dia não ousou sair do quarto, para não ser denunciada pelo perfume, tão intenso, que ela própria sentia-se embriagar de primavera. E perguntava-se de que adiantava ter trocado a barba por flores, quando, olhando no escudo com atenção, pareceu-lhe que algumas rosas perdiam o viço vermelho, fazendo-se mais escuras que o vinho. De fato, ao amanhecer, havia pétalas no seu travesseiro.
Uma após a outra, as rosas murcharam, despetalando-se lentamente. Sem que nenhum botão viesse substituir as flores que se iam. Aos poucos, a rósea pele aparecia. Até que não houve mais flor alguma. Só um delicado rosto de mulher.
Era chegado o quinto dia. A Princesa soltou os cabelos, trajou seu vestido cor de sangue. E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A PARIS DE EDITH PIAF - Por: Fernanda Lévy, de Paris

Para a sua estréia no grande teatro da vida, Edith Piaf escolheu o caminho do mistério. Sua certidão de nascimento indica uma data, 19 de dezembro de 1915, mas ninguém é capaz de dizer onde ela realmente nasceu. De acordo com a lenda, sua mãe, a cantora de rua Annetta Maillard, teria dado à luz a Edith Giovanna Gassion nos degraus do número 72, Rue de Belleville, lugar em que morava com o marido - o contorcionista Louis Gassion. Esta versão é reforçada pela placa de mármore na fachada do edifício, no qual lê-se: "Nas escadas desta residência, nasceu Edith Piaf". Outra versão, menos poética, atesta o seu nascimento no hospital Tenon, no bairro parisiense de Ménilmontant.
No entanto, quando a lenda é mais interessante do que a realidade é ela que prevalece. E foi justamente isso o que aconteceu durante a vida dessa importante artista francesa. Nesta reportagem, percorreremos a Paris de Piaf com o intuito de criar um roteiro cultural pelos lugares mais significativos na trajetória da cantora. O primeiro ambiente da pequena Edith foi o dos bairros populares da capital francesa. Com o pai no campo de batalha e abandonada pela mãe, a menina passou a viver com a avó materna, Aïcha, em Belleville. Anos depois, foi morar com a avó paterna, Louise, que dirigia um bordel na Normandia.
Durante sua estada, teve uma ceratite (inflamação da córnea), que resultou em cegueira total. Em decorrência disso, sua avó organizou uma peregrinação até a cidade de Lisieux para rezar a Santa Teresa do Menino Jesus. Semanas mais tarde, a menina estava curada. Durante as muitas entrevistas que deu ao longo de sua vida, a cantora sempre ressaltou o período em que ficou cega e o milagre que a fez recuperar a visão. Desde então, este tornou-se um dos episódios importantes para a criação do "mito Piaf".
Quando Edith tinha sete anos, seu pai veio buscá-la para acompanhá-lo em sua vida de artista itinerante. No início, a menina apenas recolhia as gorjetas, mas com o tempo começou a cantar no final das apresentações. Aos quinze anos, decidiu trilhar um caminho independente. Foi nas ruas do Bairro de Belleville, em Paris, que ela fez sua estréia acompanhada pela amiga Simone Berteaut. Nessa época, Edith interpretava canções da moda como Les Mômes de la Cloche e La Java de Cézigue. Esse período marcou um drama na vida da cantora: a morte da sua única filha, Marcelle, de meningite. De acordo com as histórias em torno da vida da artista, sem dinheiro, ela se prostituiu para pagar o enterro da menina. Outra lenda do "mito Piaf", cujo universo sempre esteve ligado às ruas de Belleville e de Ménilmontant.
Menina pardal - Mas foi longe dos bairros populares que a vida de Edith tomou um novo rumo. Em outubro de 1935, enquanto ela cantava na esquina da Rua Troyon com a Avenida Mac Mahon, um homem elegante a observava. Era Louis Leplée, proprietário do cabaré Gerny´s, que lançou a cantora nos palcos e batizou-a com o nome artístic Môme Piaf (Menina Pardal). Logo em suas primeiras apresentações, Edith conquistou os espectadores, mas foi graças aos programas de rádio que ela tornou-se conhecida do grande público. Em 1935, gravou seu primeiro disco, Les Mômes de la Cloche, e participou de um filme, La Garçonne. Piaf conheceu o sucesso até a data do assassinato de Leplée, em 6 de abril de 1936. O caso envolveu a cantora em um escândalo que abalou a sua carreira em ascensão.
Em plena decadência, foi amparada pelo letrista Raymond Asso, que ela reencontrou em janeiro de 1937. Ele dirigiu sua carreira e tornou-se seu mentor e amante. Foi Leplée que descobriu a "Môme Piaf", mas foi Asso que criou "Edith Piaf". O letrista fez de tudo para colocá-la nos grandes palcos parisienses. Começando pelo ABC, Music Halll no qual se apresentavam as grandes vedetes da época. Em 1937, a cantora resolveu adotar o nome artístico de Edith Piaf e passou a usar o vestido preto que se tornou sua marca registrada nos palcos. Do alto do seu 1,47 m de altura, a pequena Edith dominava Paris.
A Segunda Guerra Mundial, ao contrário de refrear a carreira de Piaf, estabeleceu definitivamente sua reputação. Durante o conflito, a cantora fez várias turnês, e o seu repertório evoluiu consideravelmente. Em fevereiro de 1940, o compositor Michel Emer ofereceu-lhe a canção L´Accordeoniste. Em Paris, ela se apresentou sucessivamente em locais da moda como o l´Européen, Bobino e o Night-Club. No plano amoroso, Edith deixou Raymond Asso pelo cantor Paul Meurisse. Em 1940, eles atuaram na peça Le Bel Indifférent, escrita por Jean Cocteau. Também ao lado de Meurisse, ela participou do segundo filme de sua carreira, Montmartre-sur-Seine, em 1941.
Além de cantora e atriz, Piaf era também letrista e compositora - é de sua autoria um dos seus maiores sucessos, a canção La vie en rose. E foi em Paris, em maio de 1945, que teria criado a música na mesa de um cabaré nos Champs-Elysées. Ela estava com a cantora Marianne Michel, que pediu à amiga uma canção para o seu repertório. Piaf, que já tinha a melodia na cabeça, escreveu a letra no local. Como não tinha registro profissional e não podia assinar a melodia, pediu ao compositor Marcel Louiguy que assumisse a autoria da música. De acordo com a versão dele, a melodia fora criada por ambos sete meses antes. Polêmicas à parte, La vie en rose tornou-se um sucesso mundial e ajudou Piaf a conquistar o público americano.
O primeiro contato da cantora com os Estados Unidos, em 1947, foi desastroso. O público permaneceu insensível a sua música. Mas, graças a um artigo de um influente crítico americano, ela conseguiu um contrato no cabaré Versailles, na Broadway. Desta vez, Piaf seduziu a platéia com uma versão de La vie en rose em inglês. No mesmo ano, a cantora conheceu o campeão de boxe Marcel Cerdan, em Nova York. Sobre ele, Piaf declarou: "Eu amei apenas uma vez na minha vida. Foi Marcel Cerdan...". Em Paris, o casal se instalou em um hôtel particulier, em abril de 1948, mas o romance não durou muito.
Em outubro de 1949, Cerdan morreu num acidente de avião, quando ia a Nova York encontrar-se com Edith. Inconsolável, ela dedicou a Marcel a canção Hymne à l´amour, um hino ao seu amor perdido. Abalada pelo trágico evento, Piaf teve sua dor moral transformada em sofrimento físico. A cantora passou a ter crises de reumatismo, e os médicos lhe receitaram morfina. Apesar da dor, ela não deixou de trabalhar. Em março de 1950, estava de volta aos palcos parisienses, na Salle Pleyel, depois de seis meses de ausência.
Última temporada - Nos anos seguintes, o drama continuou presente na vida da cantora. Em 1951, ela sofreu dois acidentes de automóvel e recebeu novamente injeções de morfina. Sempre em busca do amor, Piaf casou em setembro de 1952 com o cantor Jacques Pills, em Nova York. Entre suas turnês no exterior, o casal vivia em um grande apartamento no térreo do 67, Boulevard Lannes, último endereço da cantora em Paris. A capital francesa era a cidade favorita de Piaf, assim como o público parisiense. O palco preferido, entre 1955 e 1962, foi o do music hall Olympia. Amiga do proprietário da casa, Bruno Coquatrix, a cantora contribuiu para a fama do local.
Quando em 1956 ela voltou a Paris depois de uma turnê de 14 meses no exterior (passando pelo Brasil), foi no Olympia que reencontrou o seu público e interpretou pela primeira vez sucessos como La Foule e Non, Je Ne Regrette Rien. Foi graças a Piaf que a casa de espetáculos não faliu. Em 1961, mesmo com a saúde abalada, ela se apresentou no lugar para ajudar o amigo Coquatrix, em dificuldades financeiras.
A cantora também apoiou vários artistas em início de carreira como Yves Montand, Georges Moustaki e Charles Aznavour. Com os dois primeiros, teve um romance, e, com o último, uma grande amizade. Montand dividiu o palco do Moulin-Rouge com ela, em agosto de 1944. Para ele, Piaf escreveu as canções Sophie, Le Balayeur e Il fait des. Foi ao lado dela que o cantor fez sua estréia no cinema no filme Étoile sans lumière (1946). Para Edith, o compositor Georges Moustaki criou a letra de Milord (1958), um de seus grandes sucessos. Charles Aznavour foi descoberto pela artista em 1946 e acompanhou-a em turnês pela França e pelos Estados Unidos.
A amizade que ligava Edith a Charles durou até a morte da cantora. Eles tinham em comum a mesma trajetória de início de carreira, nas ruas e nos cabarés de Paris.
Foi na capital francesa, no início de 1962, que Piaf conheceu seu último marido, o jovem cabeleireiro Théophanis Lamboukas. Ela tinha 47 e ele 26 anos.
No plano profissional, ela continuava a cantar em público, embora sofresse vertigens que a obrigavam a interromper suas apresentações. Piaf decidiu lançar a carreira do seu novo companheiro, Théo Sarapo, rebatizado por ela: "Sarapo, a única palavra grega que eu conheço, significa eu te amo". Juntos eles gravaram a canção A quoi ça sert l´amour e se apresentaram no Olympia (a última apresentação de Edith no local). A temporada só foi interrompida em 9 de outubro de 1962, dia do casamento.
Último desejo - Com a saúde cada vez mais frágil, a cantora ainda tinha planos de realizar uma turnê pela Alemanha. Mas um coma hepático em abril de 1963 pôs fim a esse projeto. No hospital, entre a vida e a morte, a "môme" ainda entoava melodias do tempo em que era Piaf. Todos os seus contratos foram cancelados. Em setembro, Théo instalou a esposa em uma casa de campo em Plascassier, no Sul da França. Restaram poucos amigos fiéis, como Jean Cocteau, que telefonava toda semana. Edith ainda tinha a esperança de voltar a cantar nos palcos de Paris, cidade que ela nunca mais tornou a ver.
Edith Piaf morreu duas vezes. De acordo com seu atestado de óbito, a cantora faleceu de câncer no dia 11 de outubro de 1963, em seu apartamento em Paris.
Na verdade, ela morrera um dia antes, na casa de campo em Plascassier. O atraso do comunicado público teria sido intencional, para realizar seu último desej ser enterrada ao lado da filha, Marcelle, e do pai, Louis, no Cemitério Père-Lachaise, na capital francesa.
A notícia da morte da cantora levou uma multidão de fãs ao Boulevard Lannes. Cerca de 40 mil pessoas acompanharam seu enterro, entre elas sua grande amiga, a atriz Marlene Dietrich. O túmulo de Edith Piaf é um dos mais visitados do cemitério, principalmente depois do lançamento do filme Piaf - Um hino ao Amor, este ano (veja boxe abaixo).
A Paris de hoje não esqueceu Piaf. No Bairro de Ménilmontant, vários objetos do universo da artista foram reunidos em um pequeno apartamento-museu, criado em 1977 pela associação Les Amis d´Edith Piaf. A música da cantora ecoa no local, onde é possível esbarrar em lembranças da "môme", como as luvas de boxe de Marcel Cerdan ou o enorme urso de pelúcia, presente de Théo Sarapo. Próxima ao hospital Tenon (local do seu provável nascimento), está localizada a Praça Edith Piaf. Em 11 de outubro de 2003, a Prefeitura de Paris inaugurou ali uma estátua de bronze representando a artista, em comemoração aos 40 anos do seu falecimento. Após ter dado a volta ao mundo com suas canções e conhecido a glória e a adversidade, Piaf ainda habita a capital francesa, lugar que a viu nascer e que ela nunca deixou de cantar.