segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Comentário sobre a Semana Maranhense de Dança - Por: Rafael Guarato

Começa a Quarta Semana Maranhense de Dança

O coreógrafo e intérprete Rafael Guarato está participando da Quarta Semana Maranhense de Dança, onde apresentará um trabalho e lançará seu livro. O texto abaixo, de sua autoria, nasceu da necessidade observada por Rafael de registrar o evento, que luta para continuar suas atividades.

A segunda-feira (17/08) não foi ordinária para a dança no Brasil, especialmente para os artistas dessa arte no estado do Maranhão, pois teve inicio a Quarta Semana Maranhense de Dança, que se prolonga até domingo (23/08), e que já encontra-se imerso no calendário brasileiro da cena artística da dança.

Tudo teve início há pouco mais de quatro anos, quando um grupo de artistas maranhenses aceitou o convite da direção do Teatro Arthur Azevedo para que, juntos, colocassem “a mão na massa” em prol de um evento de nível nacional e que fosse realizado no estado do Maranhão, buscando trazer artistas, críticos, especialistas em dança já consagrados no cenário brasileiro, bem como fomentar a criação, produção e circulação de artistas locais por meio de apresentações, cursos, palestras, lançamento de livros que abarcassem a dança e suas múltiplas linguagens.

Nesta quarta edição do evento, a comissão organizadora contou com inúmeros empecilhos político (alteração no cargo de governador e consequentemente de seus secretários), que fizeram com que o evento, agendado para o mês de abril, fosse adiado para agosto. Também foram efetuados incontáveis reajustes no orçamento do evento. Todavia, sem a intenção de parecer um discurso nacionalista, muito menos político-partidário, faz-se necessário destacar que Abelardo Teles, Carlos Kenne Guimarães e Erivelto Vianna, que formam a Comissão Artística do Teatro Arthur Azevedo, não tomaram conhecimento das adversidades e estão fazendo acontecer a Quarta Semana Maranhense de Dança: corpos em diferentes movimentos. Dando uma demonstração de vontade artística acompanhada de enfrentamento político e luta para legitimar o campo da dança no estado do Maranhão como essencial para formação humana e cidadã.

Tendo em vista a brusca redução no orçamento previsto para realização do evento, a noite de abertura ficou a cargo de artistas locais, o que não implica afirmar perda em qualidade, ao contrário, chamaram a responsabilidade para si e deram uma mostra do que são capazes, demonstrando uma pitada do que está sendo produzido da região.

Fora os cursos que tiveram início no decorrer da segunda-feira, logo de cara, público e participantes do evento puderam vislumbrar-se com duas mostras de artistas cujas trajetórias esbarram com a da Semana Maranhense de Dança. A princípio uma demonstração coletiva e, ao mesmo tempo solo, de artistas que compõem o Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro (MA), no espaço Tapete Criações Cênicas. Trata-se de um grupo que exibiu nada menos que nove trabalhos autorais de alguns de seus intérpretes criadores, a saber: Denise dos Anjos, Marina Corrêa, Neusa de Paula, Tatiane Soares, Timótio Cortes, Geraldine Gauthier, Rosa Ewerton, Valda Lino e Leônidas Portella (que também assina a direção do coletivo). Esse somatório de trabalhos solos foi intitulada de Labirinto dos Poros, visando expressar de forma experimental caminhos possíveis para trabalhos em dança-teatro.
Os trabalhos dialogam com fontes díspares como: obras literárias, artistas plásticos, imagens e sonoridades fílmicas, objetos ordinários como recurso para criação de movimentação em dança, personagens de ficção, estados emotivos, dentre outros, mostrando formas diferentes, mas convergentes, cada qual em seu tempo e especificidades artística, umas com um pouco mais de consistência teórica e corporal que outras, mas que nem por isso deixaram de arrancar aplausos calorosos de público ao fim das apresentações.

Logo em seguida houve a abertura oficial, realizada no Teatro Arthur Azevedo e contou com a Sacerdotal Cia. de Dança (MA) que apresentou o espetáculo Beijo. Dirigido por Carlos Kenne Guimarães e coreografado por Cléo Junior, a companhia, que existe há apenas três anos, demonstrou que está conseguindo estabelecer um diálogo frutífero com as exigências cênicas de um teatro do porte do Arthur Azevedo, esbaldando no uso de recursos de iluminação que perpassam todo o espetáculo e forneceu sustentação à cena da companhia. Tal como a movimentação respeita os limites do elenco e suas possibilidades, ocorrendo poucos momentos em que a movimentação exigiu mais que os corpos presentes em cena puderam oferecer. O que deixou desejar foi a produção técnica da trilha sonora, que promoveu cortes assimétricos e bruscos num espetáculo que trabalha em consonância com a musicalidade adotada, e muito bem eleita, diga-se de passagem. Beijo pleiteia representar corporalmente, mas não só via boca, os diferentes significados do beijo, o que esse gesto humano expressa e/ou omite em seus múltiplos usos, inclusive históricos.

Tudo isso no primeiro dia de uma semana que promete muito. Nesta terça-feira ocorrerá palestra com Marcelo Eevelin, lançamento do livro: Dança de Rua; corpos para além do movimento, de Rafael Guarato, e as apresentações do Grupo Teatro-Dança com o espetáculo Alma Nova e Vanilton Lakka com o trabalho O corpo é a mídia da dança? e Outras Partes na versão tríade. Na quarta-feira teremos Helio Martins com a obra intitulada Hem, heim. Foi assim que eu quis, e é assim que eu sou feliz e novamente Vanilton Lakka que irá apresentar Dúbio. Quinta-feira é a vez do Grupo Okum, que traz o trabalho Origens.

Sexta-feira é a vez da Gesto Cia de Dança, do Rio Grande do Norte, que trará a pesquisa Sem Sentido. No sábado, entra em cena o Núcleo de Criação do Dirceu apresentando Sobre Ossos e Robôs (foto) e logo depois Acupe Grupo de Dança, que apresenta Coreológicas do Recife. E para encerrar a semana dançante com chave de ouro se apresentam Denise Stutz com a compilação 3 Solos em um Tempo e Ivaldo Mendonça em Grupo com a obra Tempos Fragmentos. Junto a tudo isso uma extensa programação de oficinas que englobam dança de rua, dança popular, dança afro, dança contemporânea, clássico, jazz, dança de salão e dança do ventre.

Diante as adversidades presentes no meio do caminho, a Quarta Semana Maranhense de Dança: corpos em diferentes movimentos é uma demonstração de que, independentemente da distância, posicionamentos políticos, escolha estética, linha teórico-metodológica, afinidades, a dança é uma manifestação humana que se apresenta em forma de arte, legível e passível a erros, mas acima de tudo, sempre praticável, pensada e produzida no meio social.

Rafael Guarato é coreógrafo e intérprete. Mestrando em História pela Universidade Federal de Uberlândia - Pesquisador vinculado ao POPULIS e autor do livro: Dança de Rua; corpos para além do movimento. EDUFU: Uberlândia, 2008.

Fonte: Site Idança