domingo, 18 de outubro de 2009

Safira escreveu em seu diário no dia 29 de outubro de 1986. Texto criado pela intéprete Fernanda Trovão, para "Labirinto dos Poros II"


Sou Safira, nordestina, maranhense, tenho 20 anos, sou menina e também mulher e apesar de não ter muita idade, já vivi, vi e ouvi muita coisa. Vivo em uma década de revoluções, sucessos, descobertas, anos de alegria, esperança no futuro e muitos sonhos. Onde jovens caminhavam em direção aos seus mundos, fossem eles bons ou maus, mas autênticos.
Perdi meus pais quando ainda tinha 4 anos, morávamos numa cidade pequena do Maranhão, a única pessoa que me restou na vida foi a irmã da minha mãe, Tia Cecília, logo que soube da morte dos meus pais correu para me buscar.
Tia Cecília me trouxe para morar em São Luís no Centro da Cidade em um Casarão Colonial, fui criada nele com todo amor e carinho que alguém pode desejar. Tudo que recordo da infância até os dias de hoje são os momentos em que vivi nesse casarão por isso ele é tão importante pra mim. Aqui moro com minha tia e outras garotas, sou tratada como filha pela tia Cecília já que ela nunca pôde ter filhos, tenho um laço muito forte de amizade com todas que moram aqui, quando uma vai embora parece que estão levando um pedaço do casarão. Sou muito feliz tenho teto, comida, roupa, educação, emprego e duas paixões: A DANÇA e MARIANO. Tudo que sou e que tenho é graças a tia maravilhosa que ELE me deu.
Minha casa guarda grandes segredos até uns anos atrás nem eu mesma sabia o que acontecia aqui, só sabia que as meninas dançavam. Eu olhava os ensaios delas todos os dias, e morria de vontade de dançar, mas minha tia proibia, quando chegava à noite a tia me trancava em meu quarto, era só começar algum movimento que ela já mandava eu subir, eu chorava, esperneava, mas não adiantava ela dizia que eu não tinha idade pra ficar na festa. Eu subia para o meu quarto a contragosto, meu quarto fica no segundo andar do casarão, nele existia duas janelas grandes e nelas haviam mais duas pequenininhas, as janela ficam de frente para a rua, eu observava tudo pela janelinha sem que ninguém me olhasse. Eram cavalheiros bem vestidos saindo de seus carros luxuosos, de vez em quando apareciam até pessoas que eu via na TV, depois que acalmava o movimento lá fora começava dentro do casarão, muitas vozes, cheiro de bebida e cigarro, muitas gargalhadas, gemidos e até gritos e aquelas músicas que eu adorava, dentro do meu quarto eu dava um show pra meu espelho ao som das musicas que tocavam lá em baixo, eu dançava até ficar bem cansada e dormir.
Um dia minha tia me chamou para mais uma de nossas conversas, somos muito amigas, conversamos sobre tudo e como eu já estava uma moça, ela me contava tudo que acontecia no casarão. Me disse que era uma casa de shows onde as meninas apresentavam as suas performances e que depois ela vendiam seus corpos em troca de dinheiro, aqui era conhecido como CABARÉ DA CECÍLIA, fiquei assustada, mas eu já desconfiava e comecei a entender porque quando eu dizia em que rua eu morava parecia que eu estava cometendo um pecado, tive problemas com meu paquerinhas e com meus namoricos, na escola eu escutava comentários, mas eu achava que o preconceito era pelo fato de ser uma casa onde as meninas dançavam. Depois que tive conhecimento sobre tudo, tive permissão para descer às festas, ela fez eu me empacotar toda para que nenhum dos clientes olhasse minhas curvas, eu ficava no bar atrás de um balcão, encantada com o movimento que até então eu nuca tinha visto apenas ouvido.
As meninas dançavam em um palco que fica no fundo do salão, eu ficava olhando e pensando: "Como seria bom estar ali".
Em um dia que não tinha muito movimento, numa brincadeira com as outras meninas, desobedeci e subi no palco e comecei a dançar, todos me observavam inclusive minha tia que ficou com a cara fechada, mas depois me aplaudiu feliz, nem todas as meninas gostaram, pois elas estavam me vendo como uma concorrente, mas era só uma brincadeira embora eu sonhasse muito apresentar, o meu prazer era dançar e não me prostituir. Minha tia gostou tanto que me fez um convite pra fazer uma apresentação, eu ensaiei muito e melhorei tudo que tinha que melhorar.
Chegou o grande dia, no palco havia uma cama, fiz valer a pena e vivi intensamente cada momento assim como todos os outros momentos da minha vida. Eu estava toda vestida branco (Baby Doll, espartilho e cinta liga) O show foi um sucesso, deu tudo certo e a cada dia ficava melhor, minha performance virou uma exigência dos clientes do Cabaré. O cabaré da tia é o meu porto seguro e cada dia ele significava ainda mais na minha vida, não me imagino fora daqui.
Depois de um show já subindo para meu quarto alguém segurou pelo meu braço, pensei que logo que fosse um fã ou alguém querendo me comprar, mas olhei bem e o reconheci, era MARIANO meu professor da época da escola que havia me reconhecido meu deu os parabéns, mas lamentou muito por eu estar nessa vida já que sempre fui boa aluna, contei para ele toda uma parte da minha historia e contei também que eu não me prostituia apenas dançava. A partir daí começava uma amizade, eu não sabia, mas já estava apaixonada. Mariano sempre ia aos meus shows e no final quando eu ia trabalhar no bar ele ficava perto de mim o tempo todo, nós conversávamos muito e nos dias em que ele não ia, eu sentia uma saudade imensa quando ele aparecia meu coração se enchia de alegria, ele me chamava pra dançar, ele dançava muito bem e me fazia rodopiar pelo salão com ele, eu me entregava de corpo e alma para ele. Começamos a nos envolver mais do que deveríamos, ele não era meu primeiro homem, mas era minha grande paixão, saímos algumas vezes para lugares escondidos, pois MARIANO era casado, tinha família e era muito respeitado. Minha tia achava perigoso meu envolvimento com ele, me aconselhava, mas sempre me deixava seguir meu coração mesmo sabendo que isso me faria sofrer, ela já tinha passado por isso. Vivo um relacionamento amoroso secreto, ele nunca escondeu a aliança e eu sinceramente nunca me importei com ela. Mariano é dono absoluto do meu coração, no fundo eu tenho esperanças que ele largue o mundo e fique comigo, mas sei que isso é um sonho, mas não custa nada sonhar às vezes até que é bom. Ele é tudo que sonhei, tem um jeito que me deixa louca, me beija os seios, a boca, o ventre com calma e fundo, me sinto beijada até a alma, ele roça minha nuca e me machuca com a barba mal feita, viola meus ouvidos com segredos lindos e indecentes, a minha pele fica toda arrepiada, não se mais onde termino e nem onde ela começa por alguns instantes somos um só, ele desfruta o meu corpo como se meu corpo fosse seu, de tanto me entregar já não sou minha sou totalmente dele, ele se esfrega na minha vida e me deixa assim em brasa, o meu amor me consome até a espinha. Depois de mais uma daquelas inesquecíveis noites de amor, chega a hora de ir embora, quem me dera amarrar meu amor mais de um mês, ele me olha nos olhos ainda sobre o meu corpo e ele está com aquele olhar de ADEUS, eu me debruço sobre seu corpo e me agarro a ele e não quero acreditar que mais uma vez ele se vai, eu me arrasto me humilho para que ele fique mais um dia, mas como sempre é em vão, ele se veste eu fico sentada sobre minha cama a olhar mais uma vez aquela cena, eu choro em silêncio, tento me segurar para não fazer nenhum escândalo embora esteja fazendo um escândalo no fundo de mim, ele me beija e pede para ficar bem, deixa dinheiro para que eu compre um vestido e uma jóia para que eu me enfeite e fique bem bonita para quando ele voltar, ele bate a porta e vai embora. Meus sonhos são extraviados vão parar em escadas que fogem dos pés, eu não consigo segurar, eu deixo que as águas invadam meu rosto, grito, quero morrer de ciúmes, quase enlouqueço. Fico por dias andando pela minha casa com meu olhar triste de quem está implorando por amor e carinho, mas há um lugar um casarão onde os sonhos são reais, o que me conforta é o meu palco e a alegria da minha casa, o tempo vai passando e como de costume eu faço o que ele me pede, eu fico bem, continuo reclamando, mas bem baixinho lá dentro de mim, digo que não quero os beijos dele nunca mais, eu vou par meus shows e ando pela minha casa em busca de vingança a qualquer preço, eu saio lançando olhares e atraindo olhares eu tento esquecer, mas me entrego a outros, mas nada adianta, eu nem sei quantos já entraram no meu camarim. Ele reaparece, eu sinto raiva, mas depois esqueço, não resisto a seu jeito de amar e olhar, quando percebo, ele já está em volta dos meus braços, eu estou sempre de braços abertos esperando pela sua volta, sei o que ele quer e só eu sei que para amá-lo eu viverei sofrendo. Quanto mais longe dele maior o desejo. Prefiro viver um grande amor mesmo que impossível do que não amar ninguém. SOU APAIXONADA ESCRAVA DE UM AMOR, EU GOSTO DE VIVER ASSIM, ASSIM VOU VIVENDO E ASSIM SOU FELIZ.



"Safira" por Marina Corrêa no processo criativo de "Labirindo dos Poros II"


Azul, púrpura, dourada, rósea... O que dá cor à Safira são suas impurezas.
Até pode variar do cinza ao preto. E é pura quando está incolor. Pode-se ver através dela ou até nem vê-la, restando apenas sua presença de força.
Ela não se importa quando a enxergam através de suas várias faces. Aliás, ela brinca. Muda de cor para camuflar-se. Muda de cor para perder-se em seu Universo vasto.
Passa rósea pelos corredores, azul pelas salas, sobe escadas em roxo púrpura e abre a janela do mirante já toda dourada, confundindo-se com a luz do sol.
Um casarão colonial é o palco de Safira, pois é lá onde se mostra. Onde quer que a vejam. Mas também é de onde não consegue sair.
Safira então enlouquece. E mostrar-se cada dia, cada hora ou cada minuto de diferentes formas, variando de cor em cor, é o antídoto que encontrou para viver e conviver consigo mesma. Apenas consigo mesma.
Paciência apesar da loucura.
Paixão apesar da loucura.
Assim Safira se alimenta e sobrevive.
Ouve-se bater na grande porta central. Safira abre e é a saudade quem a visita.
Pacientemente a deixa entrar e rende-se aos seus apelos.
É quando surge à sua frente a imagem de um cabaré.
Senhores abastados vibram e aplaudem as vedetes que dançam e seduzem.
Safira então, multicolorida que é, passa do triste cinza para um brilhante amarelo, e é nele que permanece até o raiar do sol.
Vinte são as primaveras de Safira, que veio ao mundo na sexta década do vigésimo século. Jovem, porém não imatura, Safira se basta. Só tem a si. Não se preocupa em mostrar quem é ou a quê veio, apenas vive. Vive intensamente cada momento e faz valer a pena.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Safira nos 60

O Núcleo Atmosfera está ensaiando a segunda temporada de "Labirinto dos Poros" para uma nova temporada de apresentações prevista para novembro de 2009. O trabalho continua enfocando questões de memória e conservação do acervo do patrimônio de São Luís. Desta vez, o trabalho amplia sua concepção estética para contrução de uma dramaturgia pautada no improviso na descriação de sensações e reflexões do elenco sobre a criação da primera temporada. O espectador está ainda mais inserido nas cenas na segunda temporada, desta vez, ele percorre a estrutura física de um casarão colonial para conhecer a história de "Saphira". O elenco explora novas possibilidades de movimentos em escadarias, janelas, portas, terraços e salões do casarão.
Saphira é uma mulher de 20 anos que viveu na dácada de 60, uma prostituta, o casarão para ela é um palco - cabaré. Nesse labirinto de lembranças e sensações o espectador percorre caminhos abstratos e expressionistas. A Dança-Teatro está inserida num contexto social onde a liberdade de expressão, sexual, a luta pelos diretos homossexuais e femininos servem como plano de fundo para a criação da dramaturgia do espetáculo.

No elenco estão os intérpretes criadores: Neusa de Paula, Marina Corrêa, Rosa Ewerton, Valda Lino, Luis Ferreira, Tatiane Soares, Luriana Barros, Marlon Anderson, Cleyce Colins, Fernanda Trovão, Thallis Portella, Timóteo Cortes, Denise dos Anjos.

Direção e Coreografias: Leônidas Portella

Produção: Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro

Clique sobre a foto abaixo e saiba um poucos sobre os anos 60
(Tempo em que nossa Saphira viveu)


Moda Anos 60


The Beatles


Elvis Presley



Cena Amarela - Revolução

Os ensaios do espetáculo "As Cores de Frida" voltaram e o elenco novo está muito dedicado.
Para ajudá-los, estou postando um link do site Cultura Brasil onde tem o Manifesto do Partido Comunista, que foi de extrema importância para o processo criativo da cena da revolução que acontece dentro da Cena Amarela; e também um link com fotografias, telas e escritos de Frida Kahlo.
Não deixem de conferir!


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Dança-Teatro e o Paradoxo

Encontrei esse blog que fala sobre o trabalho da Pina Bausch e gostaria de compartilhar com vocês.
É longo, mas vale a pena ler até o final.